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Otelo – William Shakespeare

Criado por Fabiano Categorias: Obras literárias, William Shakespeare

Esse é mais um artigo entre os artigos relacionados em Análise da Obra, disponíveis no Cultura de Qualidade. Veja também outras análises de obras de William Shakespeare, A Comédia dos Erros, A Tempestade, Romeu e Julieta, Rei Lear, Hamlet, Otelo e a Biografia de William Shakespeare.

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Uma análise da obra Otelo, uma das suas quatro grandes tragédias, situadas em circunstâncias que envolvem assuntos de estado e inquietações ligadas a problemas universais do homem, sua ação se passa em um âmbito particular, enfocando as paixões e vidas privadas de seus principais personagens.

ANÁLISE – OTELO, O MOURO DE VENEZA DE WILLIAM SHAKESPEARE

Por: ANA CLAUDIA BRIDA
PROFESSORA ESPECIALISTA

Otelo, William Shakespeare, Análise, O Mouro de Veneza, Resumo da Obra, Análise dos Personagens, Ideologia, Mensagem Introdução

O trabalho a seguir tem como objetivo analisar, sem esgotar todas as possibilidades a tragédia de Otelo (1604) que se tornou uma das obras imortais de Willian Shakespeare, que havia se baseado na Sétima Novela do Hecatommithi, de Giraldi Cinthio. A linguagem de Shakespeare, rica e criadora, contém todos os elementos anglo-saxônicos e latinos da língua inglesa, que o poeta enriqueceu com um maior número de citações, locuções e frases proverbiais do que qualquer outro autor, respeitando a versão original, mas fez algumas modificações: Shakespeare busca a comédia e o romance naturalmente, mas chega à tragédia por meio da violência e da ambivalência; atribuiu ao Mouro um caráter mais nobre e refinado, e também uma função de destaque em Veneza; aumentou a importância de Emília na trama; acentuou a malignidade de Iago; criou novos personagens e eliminou outros.

Obviamente, Shakespeare não é Lord Byron, que exibe por toda a Europa o coração sangrando; contudo, a imensa agonia que sentimos ao ver Otelo matar Desdêmona é informada não apenas por uma intensidade exterior, mas, também, interior e é justamente este fato que faz de Otelo uma tragédia do ciúme, peça de construção perfeita, onde a psicologia do Mouro ciumento e a da maldade diabólica de Iago, bem como a lógica dos acontecimentos – tradução de uma fatalidade inexorável – conduzem o espectador ao clima dos grandes modelos de tragédias gregas citadas por Aristóteles.

Bem encenada, Otelo será um trauma para a platéia, ainda que momentâneo; e desta forma o foi para Harold Bloom que afirma que a obra o apavora ainda mais do que outras peças shakesperianas, pois se trata de uma dor imponderável, desde que se conceda a Otelo a imensa dignidade e o valor que tornam a degradação do personagem algo tão terrível.

Auden, em um de seus ensaios mais enigmáticos, identifica, em Iago, a apoteose da figura do “brincalhão”, o que, no entendimento de Harold Bloom, só pode ser explicado desde que o Iago de Auden seja o de Verdi, já um ancião desencantado de setenta e dois anos que aceitara o desafio de realizar algo monumental e o faria ao transformar a peça de Shakespeare numa das mais belas óperas. O roteirista Arrigo Boito decide cortar todo o primeiro ato da obra original de Shakespeare e escrever uma narrativa mais condensada, densa, dramática e repleta de ação: algo que tiraria mesmo o fôlego do público. O resultado é poderoso, tremendo e singular, com os personagens com uma realidade individual extraordinária. As cenas de duelos são totalmente cinematográficas, os duetos sentimentais são belíssimos e o ciúme doentio de Otelo ganha cores intensas na partitura do velho mestre italiano. E talvez aqui caiba uma palavra final no que tange sobre a ópera: Verdi sempre foi meio pessimista – seu Iago termina condenado e triunfante. No original de Shakespeare, o embaixador volta-se para os guardas e diz para Iago:
“Ó cão espartano, mais feroz do que a angústia, a fome ou o mar! Olha o fardo trágico desta cama! É trabalho teu (…)! Quanto a vós, governador incumbe o castigo deste trabalho infernal. Determinai a hora, o lugar, a tortura… É preciso que seja terrível! Quanto a mim, embarco de imediato e vou ao Senado relatar, com o coração acabrunhado esta dolorosa ocorrência!”.
Shakespeare neste aspecto é um pouco mais otimista, mas Iago não conseguirá escapar do destino certo e justo.

Quanto às versões para o cinema, uma das melhores adaptações é a do diretor Oliver Parker que foi também roteirista do filme Otelo de 1995. Segue fielmente nos diálogos a poesia dramática shakespereana e coloca pela primeira vez um Otelo negro. Em outras versões, tanto para teatro como para cinema em que Orson Welles interpreta o mouro, tendo escurecido o rosto para tal, nunca se havia utilizado de uma pessoa negra, o que vem a rechaçar uma das causas de confronto da peça, que é o preconceito racial; e com grande mérito o autor Laurence Fishburne encarna perfeitamente a divindade de Otelo. Kenneth Brannagh, grande discípulo de Shakespeare da atualidade, está perfeito na interpretação do vilão Iago piscando maliciosamente para o público e mostrando todo o cinismo do personagem e dizendo:
“Quero que o Mouro me agrade, goste de mim e recompense-me por haver feito dele um astro insigne e perturbado sua paz e quietude até que ele fique louco!”.

É uma versão interpretada e filmada sábia e brilhantemente. Nas próximas páginas, vamos adentrar numa análise mais literária da obra.

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Resumo da Obra

A tragédia Otelo foi publicada pela primeira vez por volta de 1622. No entanto, sua composição é datada de 1604. Seu personagem principal, que empresta o nome à obra, é um general mouro que serve o reino de Veneza.

Toda a história gira em torno da traição e da inveja. Inicia-se com Iago, alferes de Otelo, tramando com Rodrigo uma forma de contar a Brabâncio, rico senador de Veneza, que sua filha, a gentil Desdêmona, tinha se casado com Otelo. Iago queria vingar-se do general Otelo porque ele promoveu Cássio, jovem soldado florentino e grande intermediário nas relações entre Otelo e Desdêmona, ao posto de tenente. Esse ato deixou Iago muito ofendido, uma vez que acreditava que as promoções deveriam ser obtidas “pelos velhos meios em que herdava sempre o segundo posto o primeiro” e não por amizades.

Brabâncio, que deixara a filha livre para escolher o marido que mais a agradasse, acreditava que ela escolheria, para seu cônjuge, um homem da classe senatorial ou de semelhante. Ao tomar ciência que sua filha havia fugido para se casar com o Mouro, foi à procura de Otelo para matá-lo. No momento em que se encontraram, chega um comunicado do Doge de Veneza, convocando-os para uma reunião de caráter urgente no senado.

Durante a reunião, Brabâncio, sem provas, acusou o Mouro de ter induzido Desdêmona a casar-se por meio de bruxarias. Otelo, que era general do reino de Veneza e gozava da estima e da confiança do Estado por ser leal, muito corajoso e ter atitudes nobres, fez, em sua defesa, um simples relato da sua história de amor que foi confirmado pela própria Desdêmona. Por isso, e por ser o único capaz de conduzir um exército no contra-ataque a uma esquadra turca que se dirigia à ilha de Chipre, Otelo foi inocentado e o casal seguiu para Chipre, em barcos separados, na manhã seguinte. Durante a viagem uma tempestade separou as embarcações e, devido a isso, Desdêmona chegou primeiro à ilha. Algum tempo depois, Otelo desembarca com a novidade que a guerra tinha acabado porque a esquadra turca fora destruída pela fúria das águas. No entanto, o que o Mouro não sabia é que na ilha ele enfrentaria um inimigo mais fatal que os turcos.

Em Chipre, Iago com raiva de Otelo e Cássio, começou a semear as sementes do mal, ou seja, concebeu um terrível plano de vingança que tinha como objetivo arruinar seus inimigos. Hábil e profundo conhecedor da natureza humana, Iago sabia que de todos os tormentos que afligem a alma, o ciúme é o mais intolerável. Ele sabia que Cássio, entre os amigos de Otelo, era o que mais possuía a sua confiança. Sabia também que a sua beleza e eloqüência eram qualidades que agradam as mulheres, ele era o tipo de homem capaz de despertar o ciúme de um homem de cor, como era Otelo, casado com uma jovem e bela mulher branca. Por isso, começou a realizar o seu plano.

Sob pretexto de lealdade e estima ao general, Iago induziu Cássio, responsável por manter a ordem e a paz, a se embriagar e envolver-se em uma briga com Rodrigo, durante uma festa em que os habitantes da ilha ofereceram a Otelo, que estava na companhia de sua amada. Quando o Mouro soube do acontecido, destituiu Cássio do seu posto.

Nessa mesma noite, Iago começou a jogar Cássio contra Otelo. Ele falava, dissimulando um certo repúdio a atitude do general, que a sua decisão tinha sido muito dura e que Cássio deveria pedir à Desdêmona que convencesse Otelo a devolver-lhe o posto de tenente. Cássio, abalado emocionalmente, não se deu conta do plano traçado por Iago e aceitou a sugestão.
Dando continuidade ao seu plano, Iago insinuou a Otelo que Cássio e sua esposa poderiam estar tendo um caso. Esse plano foi tão bem traçado que Otelo começou a desconfiar de Desdêmona.

Iago sabia que o Mouro havia presenteado sua mulher com um lenço de linho, o qual tinha herdado de sua mãe. Otelo acreditava que o lenço era encantado e, enquanto Desdêmona o possuísse, a felicidade do casal estaria garantida. Sabendo disso e após conseguir o lenço através de sua esposa Emília que o havia encontrado, Iago disse a Otelo que sua mulher havia presenteado o amante com ele. Otelo, antes tão equilibrado, já estava enciumado, e pergunta à esposa sobre o lenço e ela, ignorando que o lenço estava com Iago, não soube explicar o que havia acontecido que ele havia sumido. Nesse meio tempo, Iago colocou o lenço dentro do quarto de Cássio para que ele o encontrasse.

Depois, Iago fez com que Otelo se escondesse e ouvisse uma conversa sua com Cássio. Eles falaram sobre Bianca, amante de Cássio, mas como Otelo só ouviu partes da conversa, ficou com a impressão de que eles estavam falando a respeito de Desdêmona. Um pouco depois, Bianca chegou trazendo enciumada um lenço que estava no quarto de Cássio e discutiram sobre a origem do mesmo.
Vale ressaltar que o lenço era, como todo lenço feminino, fino e delicado, isso significa que quando Otelo o deu para Desdêmona, ele não a presenteou com um simples lenço, na verdade o que ele deu à ela foi tudo o que há de mais fino e delicado existente em sua pessoa. Otelo ficou fora de si ao imaginar que Desdêmona havia desprezado tudo isso dando o lenço a um outro homem.

As conseqüências disto foram terríveis: primeiro Iago, jurando lealdade ao seu general disse que para vingá-lo mataria Cássio, mas sua real intenção era matar Rodrigo e Cássio simultaneamente porque eles poderiam estragar seus planos. No entanto, isso não ocorreu conforme suas intenções, Rodrigo morreu e Cássio apenas ficou ferido. Depois Otelo, totalmente descontrolado, foi a procura de sua esposa acreditando que ela o havia traído e matou-a em seu quarto. Shakespeare faz da cena um sacrifício religioso, dotado de conteúdo contrateológico tão sombrio quanto o niilismo de Iago e o ciúme “divino” de Otelo.

Após isso Emília, esposa de Iago, sabendo que sua senhora fora assassinada revelou a Otelo, Ludovico (parente de Brabâncio) e Montano (governador de Chipre antes de Otelo) que tudo isso foi tramado por seu marido e que Desdêmona jamais fora infiel. Iago matou Emília e fugiu, mas logo foi capturado. Otelo, desesperado por saber que matara sua amada esposa injustamente, apunhalou-se, caindo sobre o corpo de sua mulher e morreu beijando a quem tanto amara.

Ao finalizar a tragédia Cássio passou a ocupar o lugar de Otelo e Iago foi entregue as autoridades para ser julgado.

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Análise Dos Personagens

Otelo – General mouro e nobre a serviço da República de Veneza. Segundo Harold Bloom, dentro de suas óbvias limitações, Otelo, de fato é “nobre”: seu consciente antes da queda, está sob firme controle, sendo justo e absolutamente digno, dotado de perfeição inata; quando Otelo, sem dúvida, a espada mais ágil do lugar, quer separar uma briga de rua basta um comando: “Embainhai vossas armas reluzentes, para que não embacieis o orvalho…”. Ainda é a representação mais tocante da vaidade e do temor masculinos com relação à sexualidade feminina e, por conseguinte, da equação masculina entre os medos da traição e da morte. O Mouro é impotente diante de Iago; tal impotência é o elemento mais angustiante da peça, à exceção, talvez da dupla fragilidade de Desdêmona, com relação ao marido e a Iago. E para Iago, ele representava tudo, porque a guerra era tudo; sem Otelo, Iago é nada, e ao guerrear contra Otelo, Iago luta contra a ontologia. Interessante notar que Shakespeare conferiu a Otelo capacidade de expressão curiosamente heterogênea, a um só tempo, singular e desarticulada, e, propositadamente, falha. O Mouro afirma ter sido guerreiro desde os sete anos de idade; mesmo supondo que a afirmação seja hiperbólica, temos de convir que Otelo tem plena consciência de que sua grandeza foi conquistada à custa de muito suor. Contudo, apesar de toda a fama, Otelo denota certa insegurança, ás vezes, manifesta em seu discurso rebuscado e barroco, satirizado por Iago como “frases empoladas de termos de militança”. A dor memorável, ou a memória induzida pela dor, emana de uma ambivalência, ao mesmo tempo cognitiva e afetiva, podemos observar isto, quando, conscientemente Otelo ao se casar com Desdêmona, põe em risco a auto-imagem construída a duras penas, e tem premonições corretas do caos se o amor fracassar:
“Pobre querida! Quero ser maldito se não te amo! E no dia em que eu deixar de te amar, que o universo se converta de novo em caos!”.

Desdêmona – cujo próprio nome em grego significa “desventurada”, prenunciando o destino que a aguarda. É uma jovem nobre, pretendida por vários jovens das melhores famílias da República, não apenas por sua beleza, mas também por seu rico dote. Ela era “uma jovem tão tímida, de espírito tão sossegado e calmo, que corava de seus próprios anseios!”. Tais características ficam explícitas na atitude de seu pai, que ao saber que ela se casou com o Mouro, atribuiu tal fato à bruxaria. Otelo fala claramente como se deu o amor entre ambos: “ela me amou pelos perigos que corri, e eu a amei pela pena que ela teve!”. Desdêmona, de bom grado, deixa-se seduzir pelo romance ingênuo e arrebatador da autobiografia de Otelo que provoca nela “um mundo de suspiros”. O Mouro não é apenas nobre; a saga de sua vida faz “uma menina que sempre foi meiga” (segundo Brabâncio, seu pai) “deixar-se apaixonar por alguém que, antes disso, ela não fitaria sem horror!”. Desdêmona, figura do Alto Romantismo, séculos à frente de seu tempo, cede ao fascínio da conquista, se é que se pode usar o verbo “ceder” para descrever entrega tão voluntária e direta. Todo esse perfil singelo que envolve Desdêmona sofre uma brusca alteração quando ela abandona a sua família e, apesar das diferenças, vai viver ao lado de Otelo em sua vida aventurosa de militar. O fim de Desdêmona é extremamente triste: além de ter sua imagem de esposa dedicada maculada, ela é abandonada por Deus, ou seja, nos seus últimos momentos de vida, não teve sequer o consolo da religião; Shakespeare, desta forma promove imenso “pathos” ao só revelar Desdêmona em toda a sua natureza e esplendor quando temos certeza de que está condenada e como uma ópera, Shakespeare permite a ela apenas na hora da morte, desobrigar Otelo, o que seria algo incrível, não fosse ela, segundo a tocante de Alvin Kernan, “a palavra shakespereana que significa amor”. Somos levados a crer que essa terá sido a mais pura das jovens, tão fiel ao próprio assassino que as últimas palavras, exemplares, são quase irônicas, diante da degradação de Otelo: “Dá lembranças minhas ao meu senhor querido… adeus…adeus!”. Desdêmona é um personagem que, além de tudo o que já foi dito, nos ajuda a entender um pouco mais do próprio Otelo. Por meio dela nos é revelado os traços morais de Otelo, características essas que contrastam com seu exterior rude.

Iago – o tempo todo, a falsidade e a corrupção permanecem em segredo. A dissimulação pérfida de Iago reina entre a aparência e a realidade. Para Shakespeare, o mal é insondável e infinito e os personagens depravados invadem o palco como haviam invadido a Corte. Shakespeare assume a tragédia moral de sua época. Segundo Germaine Greer, professora de Literatura Inglesa na Universidade de Warwick, existe um elemento na tragédia de Shakespeare que ela chama de psicomaquia que é uma luta dentro da própria alma que pode ser externalizada de várias formas. Uma delas é o mal atuando sobre o protagonista. Shakespeare mostra ainda como um tipo de mal tende a manifestar-se. O personagem é onipresente. Está em todos os lugares enganando a todos ao mesmo tempo. Para Otelo ele era tudo como um honesto soldado e de bom comportamento. A posição de Iago como porta-bandeira, tendo jurado morrer antes de permitir que as cores de Otelo sejam capturadas em batalha, atesta não apenas a confiança de Otelo, mas a fidelidade de Iago no passado. Paradoxalmente, a devoção quase religiosa por Otelo, um deus da guerra, por parte do fiel Iago, pode ser inferida como causadora da preterição. Iago, conforme apontou Harold Goddard, está sempre em guerra; é um piromaníaco moral, que ateia fogo à realidade. Apesar da sensatez que, decerto, caracterizava seu tirocínio militar, Otelo enganou-se com Iago, artista tão livre de si mesmo. A catástrofe primeira da peça é o que seria chamado de “a queda de Iago”, que estabelece um paradigma para a queda de Satã em Milton. O Deus de Milton, assim como Otelo, rebaixa o mais devotado dos seus servidores, e o magoado Satã rebela-se. Incapaz de derrubar o Ser Supremo, Satã derrota Adão e Eva; mas o sutil Iago vai mais longe, pois seu único Deus é o próprio Otelo, cuja queda se torna a vingança maior de Iago, arrasado pela rejeição, talvez, como conseqüência da mesma, sofrendo de uma impotência quase que sexual e de um forte sentimento de perda e fracasso, de não ser mais aquilo que fora. Sua grande bravata – “Nunca mostro quem sou!” – contradiz, propositadamente o apóstolo Paulo: “Com a graça de Deus, sou quem sou!”, mas Shakespeare deixa o espectador conhecê-lo a fundo. Ele ri às escondidas de suas maldades e tem o público como seu confidente. Acena e pisca o olho para a platéia com seu olhar matreiro, querendo atrair o público com sua esperteza. Só nós os espectadores conhecemos as intenções de suas maquinações e sua importância é tanta que Shakespeare não sentiu necessidade de revisar o personagem de Iago, perfeição do mal e gênio do ódio. Não há dúvida quanto à centralidade de Iago na peça: a ele são atribuídos oito solilóquios, a Otelo apenas três. Que existe, igualmente, uma certa opacidade, não temos como negar; a tragédia de Otelo é, precisamente, o fato de Iago conhecê-lo melhor do que ele próprio se conhece; à sua maneira excepcional, foi o mais inquisidor e universal dos observadores, possivelmente, inclusive no que diz respeito ao esoterismo espiritual, ainda que sempre levado pelos propósitos de descobrir ou inventar. Iago é figura terrível porque possui habilidades fantásticas, talentos dignos de um fiel devotado cuja fé foi transformada em niilismo. Caim, rejeitado por Javé em favor de Abel, é pai de Iago, assim como Iago é o precursor do Satã de Milton. Iago mata Rodrigo e fere Cássio, mas a idéia de Iago esfaquear Otelo é tão inconcebível para o próprio Iago quanto para nós. Quando somos rejeitados por nosso deus, temos de atingi-lo espiritual ou metafisicamente, e não apenas fisicamente.

Cássio – jovem matemático florentino que “nunca comandou nenhum soldado num campo de batalha e que conhece tanto de guerra como uma fiandeira”. Mesmo assim, foi escolhido por Otelo para ocupar o posto de tenente. Cássio foi o grande intermediário das relações amorosas entre Desdêmona e Otelo e, por isso, gozava da confiança do casal. Ele era amante de Bianca que vivia em Chipre. Cássio era ingênuo, não percebeu que Iago tramava a sua desgraça, deixou-se embriagar enquanto estava de guarda, envolveu-se em uma briga e, por esse motivo, foi destituído do seu posto. Isso levou-o ao desespero e transformou-o em uma verdadeira marionete nas mãos de Iago. Cássio pode ser considerado como personagem coadjuvante, uma vez que Iago se apóia em sua figura para executar seus planos.

Brabâncio – pai de Desdêmona, ocupava o cargo de senador na República de Veneza. Era um homem rico e mostrou ser totalmente contraditório: antes do casamento de sua filha com Otelo, ele foi recebido várias vezes em sua casa. Depois disso, acusou-o de feitiçaria e teve a intenção de matá-lo. No entanto, quem veio a falecer foi o próprio Brabâncio.
Emília – mulher de Iago e serviçal de Desdêmona. A princípio sua participação na peça é discreta, mas no final ganha importância. Em nome da honra de sua senhora ela enfrenta o marido, revelando a Otelo que Iago o estava enganando.

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Tempo

Na obra Otelo existe o predomínio do tempo psicológico. Isso ocorre devido aos vários monólogos existentes na peça. Esse recurso era muito usado no teatro para revelar o que os personagens estavam pensando. A maioria dos monólogos da obra Otelo é feita por Iago que nos revela toda a interioridade de sua alma tenebrosa. Quando isso ocorre quebra a cronologia do tempo cuja passagem é marcada pela fala dos personagens e, como isso é feito de forma muito sutil, é difícil identificá-lo.

O primeiro ato dura uma noite. Entre esse ato e o seguinte existe um intervalo de cerca de uma semana, tempo que durou a viagem de Veneza a Chipre: “em companhia ele a mandou do destemido Iago, cuja vinda ultrapassa nossos cálculos de uma semana”. O segundo ato era uma noite. Inicia-se quando os navios desembarcaram em Chipre e termina na noite desse mesmo dia com Iago incentivando Cássio a procurar Desdêmona para que ela intercedesse a seu favor junto a Otelo: “… logo que amanhecer, vou pedir à virtuosa Desdêmona que interceda a meu favor…”.

O ato III inicia-se no dia seguinte: “Então não vos deitastes? – Oh, não! Raiou o dia quando nos separamos…”. Acreditamos que esse ato dure um pouco mais de uma semana. Essa idéia é apoiada na fala de Bianca que se dá no final desse ato: “E a vossa casa eu também ia, Cássio. Uma semana ausente? Sete dias e sete noites…”. Por meio dessa fala deduzimos que Cássio, quando chegou à ilha, foi visitar sua amante.

Os atos de IV e V duram um dia e uma noite. A fala de Bianca no final do ato III nos dá uma identificação de que esse ato termina durante o dia: “… acompanhai-me um pouco e declarai-me se ainda vos verei antes da noite!”. Depois disso não há na obra mais indicações de que os dias se passaram, o que existe são apenas trechos que indicam que anoiteceu: “… é noite alta!” e “Desdêmona dorme, no leito. Uma candeia acesa. Entra Otelo”. Com base nos dados do levantamento acima, acreditamos que o tempo interno da obra dure aproximadamente 24 dias.

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Espaço

O espaço em Otelo não é muito relevante. O primeiro ato da obra ocorre em Veneza e os demais na ilha de Chipre. Em Veneza os espaços são a rua da casa de Brabâncio, uma outra rua não identificada e a Câmara do conselho. Em Chipre, a primeira cena ocorre perto do cais, as demais se dão em ruas não identificadas, diante e em quartos do castelo. Na obra existem espaços abertos e fechados, mas as cenas de maior tensão ocorrem em espaços fechados, como exemplo, podemos citar as mortes de Desdêmona, Otelo e Emília. O espaço também é fechado quando Iago articula seus planos malignos. Às vezes isso se dá nas ruas, espaços abertos, mas a escuridão da noite dificulta a visibilidade e esse espaço torna-se fechado. Iago é um ser tão maquiavélico que usa os espaços para executar seus planos. Ele se aproveita dos espaços fechados para induzir Cássio a envolver-se numa briga. Depois ele usa esse mesmo tipo de espaço para matar Rodrigo e ferir Cássio e ainda na cena em que Iago faz Otelo ouvir apenas parte de sua conversa com Cássio, dando-lhe a impressão que Desdêmona o havia traído.

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Ideologia

Nessa tragédia são encontradas várias idéias muito interessantes que, em sua maioria, fazem parte do nosso cotidiano:

I.) Preconceito racial e religioso:
O preconceito racial se faz presente em quase toda a obra. É fácil encontrar trechos em que outros personagens zombam de Otelo por causa da sua cor.
” Iago – … Agora mesmo, neste momento, um velho bode negro está cobrindo vossa ovelha branca… / … Quereis que vossa filha seja coberta por um cabalo berbére e que vossos netos relinchem atrás de vós?”.
O preconceito religioso é percebido nas falas de Otelo e de Rodrigo:
“… e cuja mão, tal como um vil judeu, jogou fora uma pérola mais rica que toda a sua tribo… / cão circuncidado”.
A circuncisão é uma operação que retirava parte do prepúcio, pele que envolve o pênis. Esse tipo de cirurgia é feita pelo povo judeu para serem confirmados na religião. No Novo e no Velho Testamentos, sempre que é usado o termo circuncidado, faz-se referência aos judeus.

II.) Contraste entre a realidade e as aparências:
Iago aparentava ser uma pessoa boa e digna de confiança, mas ele mostrou ser justamente o oposto, ou seja, maligno e traidor, pois o fascínio pelo poder, que vêm a ser o mesmo que o fascínio pelo mal, é inato ao ser humano. De certo modo, a arte de Shakespeare, manifestada através da ruína de Otelo nas mãos de Iago, é por demais sutil para ser parafraseada no ato crítico. Iago insinua a infidelidade de Desdêmona, primeiramente, sem o fazer de maneira direta, apenas cercando a questão de um lado e de outro:
“Que a boa fama, para o homem, senhor, como para a mulher, é a jóia de maior valor que se possui. Quem furta a minha bolsa me desfalca de um pouco de dinheiro…”.

III.) Ciúme injustificado:
Otelo sentia ciúme de sua mulher, sem que ela nunca lhe desse motivos. Foi esse ciúme doentio que permitiu que Iago o enganasse. O grande “insight” de Shakespeare com relação ao ciúme masculino é que o mesmo se trata de uma máscara que oculta o medo de castração na morte. Os homens acham que para eles jamais haverá tempo e espaço suficientes, e encontram na questão da infidelidade feminina, real ou imaginária, um reflexo do próprio fim, a constatação de que a vida há de continuar sem eles e Otelo se torna tão vulnerável. “Por que me casei?”, ele exclama, e aponta os próprios “cornos” quando diz a Desdêmona: “Dói-me a cabeça aqui”, o que a pobre esposa, inocente, atribui ao cansaço, tendo Otelo passado a noite cuidando do governador ferido.

IV.) A união de uma mulher branca com um mouro:
Isso para a época, era uma situação pouco comum e que, se ocorresse de fato, escandalizaria a sociedade, e no pleno desempenho de suas funções, Otelo estaria imune ao charme de Desdêmona, e à franca paixão da jovem pelo mito que ele representava.

V.) Crítica Política:
Esse tipo de crítica pode ser visto quando Brabâncio chama Iago de vilão e ele, ironizando, chama-o de senador: “Brabâncio – Sois um vilão! / Iago – E Vós… um senador!”.

VI.) Visões Oníricas (sonhos)
Observando a leitura de Jorge Luis Borges, podemos constatar a importância dos sonhos e premonições na literatura inglesa, basta observar as histórias de Chaucer que descobriu sua vocação num sonho e de Coleridge que sonhou com a construção de um poema sobre um palácio de Kubla Khan, imperador do Oriente que sonhou o palácio que desejava arquitetar; e Shakespeare utiliza desse recurso em três momentos: o sonho angustiante de Brabâncio, as visões de Otelo a cerca de Desdêmona e a premonição de Desdêmona no leito de morte ao cantar uma canção fúnebre.

Mensagem

A grande mensagem que Otelo nos deixa é sobre a fraqueza humana. Iago e Cássio são pessoas fracas, pois não suportaram perder as posições no exército. O primeiro não suportou ver uma outra pessoa ocupando o posto de tenente que ele tanto almejara e mais ser traído por uma pessoa que tratava qual um deus, e sentir-se traído por um deus, seja Marte ou Javé, e buscar a reparação do amor-próprio ferido, constituem os motivos mais justificáveis para qualquer vilão; daí o desígnio de fazer o deus retornar ao abismo no qual o vilão já se encontra.

Otelo ama Desdêmona, ainda que, basicamente, em resposta ao amor que a jovem revela pelo passado triunfante do herói. Preterido, ou seja, anulado, Iago decide converter seu sadomasoquismo em “contratriunfo”, que há de fazê-lo comandar o comandante, e transformar em divindade degradada o deus por ele até então venerado. O caos que Otelo, com razão, tanto temia, caso deixasse de amar Desdêmona, é o elemento natural que cerca Iago desde a promoção de Cássio. Desse caos, Iago surge como um novo demiurgo, um mestre da destruição.

Já o segundo, Cássio ao ser destituído deste mesmo posto entrou em desespero, mostrando assim toda a sua fragilidade. Otelo por sua vez, foi fraco por não acreditar que possuía qualidades para manter ao seu lado uma mulher jovem e bonita como Desdêmona. Se no início, ou final da peça, Otelo é tão somente a soma total das descrições que faz de si próprio, então pode ser considerado um verdadeiro festival de personalidades. Porém, o tratamento na terceira pessoa por ele dispensado às suas auto-imagens não sugere um “nós somos”, mas um perene romantismo no modo como o personagem vê a si mesmo e se descreve. Até certo ponto, Otelo encanta a si mesmo, assim como encanta Desdêmona. Desesperadamente, Otelo deseja e precisa ser o protagonista de um romance shakespereano, mas torna-se o herói vitimado da mais sofrida das tragédias de Shakespeare.

Além disso, percebemos que em Otelo o mal não prevalece. Apesar de Iago ter conseguido o seu objetivo que era destruir a felicidade do Mouro, ele foi preso e entregue às autoridades para ser julgado. Com isso, concluímos que o que prevalece na obra são os bons valores morais, percebido na figura de Cássio que sempre agiu com boa fé e acabou premiado com um posto superior ao cargo que ocupava e que Iago tanto almejara.

Esse é mais um artigo entre os artigos relacionados em Análise da Obra, disponíveis no Cultura de Qualidade. Veja também outras análises de obras de William Shakespeare, A Comédia dos Erros, A Tempestade, Romeu e Julieta, Rei Lear, Hamlet, Otelo e a Biografia de William Shakespeare.

BIBLIOGRAFIA

  • BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e Estética. 2ª ed. São Paulo: UNESP, 1990.
  • BLOOM, Harold. Shakespeare, a Invenção do Humano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.
  • BORGES, Jorge Luis. Livro dos Sonhos. 6ªed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
  • BURGESS, Anthony. A Literatura Inglesa. São Paulo: Ática, 1996.
  • BUTLER, M. Theatre and Crisis, 1633-1642. Cambridge: Cambridge University Press, 1984
  • CÂNDIDO, Antônio. Na Sala de Aula: caderno de análise literária. 5ªed. São Paulo: Ática, 1995.
  • FRYE, Northrop. Sobre Shakespeare. 2ªed. São Paulo: EDUSP, 1999.
  • HILL, Christopher. Literature and the English Revolution, The 17th Century, v. 1, n. 1, p. 15-30. Jan. 1986.
  • LAMB, Charles & Mary. Tales from Shakespeare. New York: Bantam, 1963.
  • OUSBY, Ian. The Wordsworth Companion to Literature in English. 2ªed. Cambridge: Wordsworth Reference, 1992.
  • SHAKESPEARE, Willian. Othello, o Mouro de Veneza. Trad. Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Melhoramentos, 1999.


SITES PESQUISADOS:

  • http://www.dvdshopp.com.br/detalhe
  • http://www.escolavesper.com.br/osgrandesnomesdorenascimento
  • http://www.magicbus.com.br/html/conteudo/musica/opera
  • http://www.mundocultural.com.br
  • http://www.oclick.com.br/colunas
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